domingo, maio 07, 2006

Memórias no dia da Mãe

Não tenho muitas memórias de quando era pequeno, mas a maior parte das que tenho são boas. A alegria de ir a correr ver as prendas debaixo da árvore de Natal, e desembrulhar um estojo de lápis de cor como se fosse a coisa mais valiosa do mundo. O prazer de acampar, poder andar o dia todo só de calções, fazer cabanas com caixotes de cartão, encher-me de pó dos pés à cabeça.

Neste dia da Mãe, uma das coisas de que me lembro é uma certa vergonha que sentia porque achava que a minha Mãe passava o tempo a reclamar. Não a dizer mal da vida (felizmente nunca foi do género "queixinhas"), mas a reclamar com aquilo que achava que estava mal.
Num restaurante, num parque de campismo, numa loja, onde quer que fosse - se algo não funcionava como era suposto, lá ia a minha Mãe pedir o livro de reclamações, e falar com o gerente.
Na altura eu só pensava porque é que não teria direito a uma Mãe como as outras, que aceitavam as coisas como elas eram. Porque é que a minha Mãe haveria de se chatear, se nem sequer ganhava nada com isso?

Não foram precisos muitos anos para eu perceber que, afinal, este era um comportamento do qual me devia orgulhar, e que deveria seguir. Que só reclamando se muda o que está mal. Que o silêncio e a complacência só servem para perpetuar os erros, até ao ponto em que toda a gente os acha normais. E que mesmo quando sentimos que a nossa voz está só, muitas vezes é tudo o que é preciso para que outras se juntem.

2 comentários:

Em 09 maio, 2006 13:47, Blogger Flower disse...

Ser mãe deve ser, de facto, uma experiência formidável. Para além de se adquirir (digo eu!) uma capacidade interior de amparo dos seus rebentos, este ainda é exprimido com um sorriso nos lábios e com a devida componente pedagógica. E depois, ainda tem energia para a sua actividade profissional, social, marital...

Mãe é mãe, mas também não nos podemos esquecer do papel do homem enquanto pai. É para sempre uma referência de força, coragem e disciplina.
:-)

 
Em 19 janeiro, 2007 23:53, Anonymous Amalva disse...

Confesso. Vim a este blog a conselho dessa tua mãe espectacular. Vim à procura deste texto, de que ela orgulhosa me falou. Confesso. Hoje eu própria "reclamo", porque também a mim ela me ensinou a fazê-lo, mas ensinou-me a fazê-lo sempre com conhecimento de causa. Essa tua mãe que me habituei a admirar e de quem , orgulhosamente digo, sou amiga. Antes aluna, depois seguidora, agora amiga. De cada vez que na minha sala de aula me sinto feliz, por ser amiga dos meus alunos,imagino sempre que ela o sentia também naquelas deliciosas aulas que me dava. São delícias as cartas que me escreve, as histórias que me conta, enchem o coração. Confesso. ADORO-A.

 

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