quarta-feira, abril 12, 2006

Evidente? Para quem?

A propósito das eleições italianas, Eduardo Prado Coelho (EPC) escreve hoje, no jornal Público, o seguinte:

"Os resultados das eleições italianas são, a diversos títulos, surpreendentes. De certo modo, para toda uma série de pessoas, de que faço parte, votar em Berlusconi não era hipótese que se pudesse pôr. Era tão evidente que era preciso votar Prodi, não por ele, mas contra Berlusconi, que nunca me passou pela cabeça que se pudesse chegar a um resultado tão equilibrado. É extremamente interessante analisar estas coisas que a uns parecem óbvias e que a outros não são."

Faço parte do grupo de pessoas de que EPC fala - nunca me passaria pela cabeça votar num ser como Berlusconi. Mas o que me leva a escrever este texto é a última frase de EPC - o que é óbvio para nós não o é para outros. E é realmente interessante pensar um pouco nisto.
O que é o "óbvio"?

óbvio (adj.)
1. que ocorre;
2. fácil de compreender; claro; intuitivo;
3. evidente; manifesto; patente; que salta à vista;
(in Dicionário Porto Editora)

Com tal definição, como é possível que duas pessoas considerem "óbvias" coisas opostas? Só há uma realidade, ou há várias? É um assunto metafísico, mas permitam-me (pois claro que permitem, o blog é meu!) tecer alguns comentários.
A realidade (o que quer que isso seja) está sempre sujeita à interpretação de cada um, e essa interpretação depende de muitos factores.
A meu ver depende, sobretudo, da nossa formação, no sentido mais lato da palavra. Não só do conhecimento que temos do assunto em análise, mas também dos (nossos) valores morais e éticos que lhe possam estar associados.
Mas se é possível fazer uma pessoa mudar a sua noção do que é óbvio dando-lhe informação adicional, já o mesmo se torna quase impossível quando os valores morais estão no cerne da questão.
Por isso (e por outras razões menos transcendentais) é tão difícil (impossível?) o diálogo Norte/Sul, Ocidente/Oriente, Europa/EUA, etc, etc.

Uma coisa é certa: para mim, é óbvio que Berlusconi é o tipo de pessoa que não devia governar nem sequer um galinheiro, quanto mais um país. Para muitos italianos (
quase metade), é óbvio que pode.

2 comentários:

Em 14 abril, 2006 19:08, Anonymous rosariomateiro disse...

É com muita veemência que corroboro que o "óbvio" não é o mesmo para todos!
É assim que mostramos a diferença entre nós!

 
Em 17 abril, 2006 23:03, Anonymous Anónimo disse...

"O óbvio" depende, naturalmente,da formação ( em sentido lato) de cada um.O que para um é claro como água porque a sua maneira de ver o mundo assim o determina,sem qualquer hesitação,para outro que tem uma visáo diametralmente oposta é claro exactamente o contrário disso. Se assim não fosse,como poderíamos entender que o Hitler continue a ter defensores?

 

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